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Arquivo Paço de Calheiros

Detalhes do registo

Nível de descrição

Fundo Fundo

Código de referência

PT/PC/FAM/APC

Tipo de título

Atribuído

Datas de produção

1200 A data é incerta a 1983 A data é incerta

Dimensão e suporte

Papel e Pergaminho

Entidade detentora

Paço de Calheiros

Produtor

Família Calheiros

História administrativa/biográfica/familiar

O Paço de Calheiros assume lugar de relevo entre as propriedades da Região da Ribeira Limiana. É um solar setecentista expressivo da arquitectura civil portuguesa. Nele viveram várias gerações da mesma família, e por isso carrega memórias seculares.

A antiga quinta do Paço de Calheiros, que anteriormente também foi designada como Quinta do Pinheiro, situa-se na freguesia de Santa Eufémia de Calheiros (concelho de Ponte de Lima).

A sua origem está ligada à instituição da Honra de Calheiros, concedida por D. Dinis. Esta foi confirmada por D. Afonso IV a favor de Martim Martins Calheiros, na cidade de Santarém, a 5 de Fevereiro de 1336. O Rei D. Sebastião, por sentença de 12 de Novembro de 1566, ratificou os direitos e limites da Honra de Calheiros a favor de Diogo Lopes de Calheiros, autor do Memorial de Calheiros e antigo Provedor da Misericórdia de Viana (1568). Vinculado em Morgadio, da Honra faziam parte o Padroado da Igreja de Santa Eufémia de Calheiros e igrejas anexadas, bem como os sétimos de Lastral e de Vilar do Monte. O edificado de Calheiros iniciou-se com uma torre medieval adossada à capela, demolida no fim do séc. XVII pelo Morgado Francisco Jácome Lopes de Calheiros. O actual edifício desenvolveu-se em ambos os lados da capela dedicada a S. Bento, patrono da família. A construção evoluiu para as torres, mantendo-se a capela no centro.

O Paço de Calheiros encontra-se na posse da família desde 1450, como testemunha uma lápide existente no portão da entrada, cuja legenda em caracteres góticos diz: “Desta antiga e nobre casa preced’os Calheiros: Fidalgos d’Solar”. Nessa altura era senhor da casa Diogo Lopes de Calheiros, filho de Garcia Lopes de Calheiros, o Velho. Este militara nas guerras de Castela e África durante o reinado de D. Afonso V. Para premiar os seus serviços, D. João II fez-lhe mercê e confirmação do couto e honra de seus passados, como é referido no Memorial de Calheiros.

É imprecisa a origem da família Calheiros. Várias são as procedências que lhe são atribuídas. No texto das Memórias Paroquiais, inquérito enviado aos curas e abades das paróquias portuguesas em 1758, o pároco João Velho Barreto (capelão fidalgo abade da paroquial igreja de Santa Eufémia de Calheiros) indica que a família descende de D. Arnaldo de Baião, guerreiro alemão, que pelos anos de 985 veio a terras de Espanha batalhar contra os mouros e se tornou tronco de várias famílias nobres de Portugal. Outros afirmam que a família teve origem em Pedro Martins de Chacim Calheiros ou D. Álvaro de Luna, abade de Rendufe. Para outros autores, a casa de Calheiros teve origem no reinado de D. Afonso III, com Vasco Fernandes. Este tomou o apelido Calheiros da quinta e torre onde vivia. Mais tarde, em 1385, quando o seu descendente Garcia Lopes Calheiros auxiliou D. João I a conquistar o castelo de Neiva e a vila de Ponte de Lima, o fundador da Casa de Aviz fê-lo alcaide-mor dessa vila com os seus reguengos e o senhorio de Santo Estevão da Facha, com todos os bens móveis e de raiz, que foram de Lopo Gomes de Lira. Também se diz que os Calheiros tomaram o brasão dos Velhos, por serem da sua prole. No entanto ambos descendem de D. Ayres Nunes, originário da Galiza, e por isso adoptaram as vieiras e bordões de Santiago de Compostela. Segundo o Memorial de Calheiros a família provém de Dom Aldias e de sua mulher Dona Gontinha, dos quais precede Martim Martins de Calheiros que obteve de D. Afonso IV a sentença da Honra de Calheiros. D. Aldias e Dona Gontinha foram responsáveis e edificadores do Mosteiro de Calheiros, cujas freiras se mudaram para esse lugar vindas de Labruje (S. Cristóvão), cenóbio fundado em 942, pelo bispo S. Hemózio de Tui. Inicialmente, de invocação de Sant`Ana e a seguir do Salvador, o mosteiro da freguesia de Calheiros viu as suas terras emprazadas e a capela incorporada no Paço de Calheiros. No campo chamado de Salvador aparecem ruínas deste mosteiro que aqui persistiu até 1354, altura em que as religiosas se mudaram para Vitorino das Donas, na margem oposta do rio Lima. Até 1520, data do fim do privilégio de manutenção deste cenóbio na família Calheiros, correu sangue da família nas 13 abadessas deste mosteiro beneditino. As carreiras militar, diplomática e do funcionalismo público (nomeadamente á frente da Câmara Municipal de Ponte de Lima) foram igualmente seguidas por muitos membros desta Casa.

A documentação do Arquivo do Paço de Calheiros reflecte a posse e administração de vastos domínios. Compreendiam o Solar de Calheiros, as Terras de Santo Estevão de Geraz, Beiral do Lima e Reguengo de Castelo (1424), o senhorio das Terras de Burral e o Almoxarifado de Ponte de Lima (1453), o senhorio das Devezas de Ponte de Lima, (1454). Os seus detentores receberam em finais do século XIX (1890) o título de Condes de Calheiros. A Casa manteve-se na família até ao seu actual proprietário, Francisco Silva de Calheiros e Menezes, chefe do nome de armas de Calheiros, Senhor do Solar de Calheiros e representante do Título de Conde de Calheiros. Ele e seu pai Francisco Lopes de Calheiros e Meneses empreenderam grandes obras de restauro na casa de forma a abrir as suas portas ao turismo de habitação.

O Arquivo ora tratado mostra que a união de elementos da família Calheiros a outras famílias trouxe à Casa importantes espólios documentais que reflectem o papel de relevo que estas tiveram na região do Minho e noutras partes do País. Destacamos a casa dos Velho Barreto, em consequência do casamento de João Velho Barreto de Araújo com Vitória da Cunha Calheiros, senhora da casa de Calheiros. Também a casa Falcão Marinho e Barbosa Aranha devido ao casamento de Maria Teresa Falcão Sotomayor Marinho de Barbosa com Francisco Lopes de Calheiros Meneses Benevides. Ainda a casa de Benevides Mendanha pelo casamento de Maria de Benevides com Francisco Jácome Lopes de Calheiros, e a casa dos Senhores de Lira, pelo casamento de Maria Quitéria de Lira Manoel de Meneses com Pedro Lopes de Calheiros e Benevides a família Lago e Moscoso pelo casamento de Ângela Maria do Carmo Jácome do Lago Moscoso com Pedro Lopes de Calheiros e Meneses. Destas ligações ficaram marcas no arquivo do Paço de Calheiros, pelo que o espólio a que se refere o presente estudo serve não apenas o historial da família Calheiros mas o conhecimento dos ramos familiares de outras casas importantes da nobreza portuguesa.

Sistema de organização

Classificação orgânico-funcional e ordenação cronológica

Condições de acesso

A consulta da documentação está sujeita a autorização prévia.

Idioma e escrita

Português; Espanhol; Italiano; Latim

Instrumentos de pesquisa

Disponível no Sítio Web e no Portal Português de Arquivos.

Notas

O catálogo do Arquivo do Paço de Calheiros foi realizado no âmbito do Projeto desenvolvido pela APHVIN/GEHVID – Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, Câmara Municipal de Ponte de Lima e CVRVV – Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. Tratou-se o Arquivo do Paço de Calheiros tendo em vista a sua melhor preservação e simultaneamente a divulgação do acervo documental a toda a comunidade científica. Esta tarefa insere-se num propósito mais amplo que visa abranger arquivos de família que se encontrem em perigo de deterioração instalados em solares e casas solarengas da Região dos Vinhos Verdes. É que, alguns destes arquivos correm sério risco de se perderem, assumindo-se prementes as tarefas da sua recuperação, preservação e divulgação, enquanto meio de manter viva a memória dos lugares de que são, muitas vezes, manifesta centralidade.

É legítima a interrogação sobre quais os motivos que levam uma associação dedicada à investigação sobre História da Vinha e do Vinho a assumir projetos ligados à arquivística e, em particular a arquivos de família. A resposta torna-se inteligível se pensarmos que o arquivo foi gerado no território de uma das regiões vinhateiras mais importantes do nosso país que é objeto de estudo desta associação. Por outro lado, torna-se necessário salientar que, muitas vezes, os acervos de âmbito institucional público, á guarda dos Arquivos Distritais, Autárquicos e até Nacionais, apenas nos revelam aspetos parciais da história regional. Por isso, releva importância o cotejo desses documentos com os que integram arquivos de família que mais nos aproximam da realidade vivida pelas gentes locais. Afinal são eles que nos dão nota de pormenor do labor das pessoas nas unidades de produção, da distribuição da propriedade, da diversidade da mesma e das diferentes formas de a gerir. Estes fundos documentais privados transportam-nos igualmente a segmentos temporais onde não chega a documentação institucional. Em regiões vinhateiras como a dos Vinhos Verdes misturam-se frequentemente o solar e a casa solarenga, com a casa de quinta, com todos os apetrechos e pertences que, no presente, como no passado, foram usados na lavoura. Ressalta dos respetivos acervos documentais a especificidade destes elementos da civilização material que ajudam a caracterizar a especificidade da Região. É nessas casas, onde hoje funcionam ainda unidades produtivas no plano agrícola, mas também unidades de turismo rural, enoturismo ou simples turismo de habitação, que se encontram igualmente memórias documentais de vidas passadas, reveladoras de aspetos, económicos, culturais, mentais e outros que, a documentação dos arquivos públicos, pelo seu formalismo e especificidade, confinados que estão a tipologias bem conhecidas, raras vezes conseguem transportar até nós.